Jean-Michel Basquiat. The Radiant Child

Hoje (segunda-feira) começou aqui em Florença o festival Lo Schermo dell’Arte, com uma série documentários relacionados ao mundo da arte, que vão passar de hoje até quinta (25/11) no Cine Odeon.

O filme que abriu o festival foi Jean-Michel Basquiat. The Radiant Child, de Tamra Davis. Quando nós lemos no programa que ela tinha dirigido Crossroads (a.k.a. filme-da-britney-spears) e Betty a Feia, torcemos para ela ter um lado B escondido no inconsciente, ou pelo menos que o fato de ser documentário salvasse alguma coisa ali.

Não salvou. Ou melhor, uma coisa salvou sim: a figura ímpar que era o Basquiat. E a sorte que ela teve de ser amiga dele em uma época que ao mesmo tempo era o auge da carreira dele e ela fazia curso de cinema. Basquiat e a sorte, foram os únicos ingredientes que fizeram desse filme algo que valha a pena assistir.

Como biografia, basicamente. Porque, de fato, é uma história interessante, um jovem de classe média baixa que se aventura em Nova York no período de maior efervescência da sua cultura pop, conquista as pessoas com sua personalidade e sua arte, sem ter efetivamente essa intenção. Do grafitti underground, entra para os mais badalados círculos de amizade e ganha prestígio pessoal e profissional, tornando-se um dos artistas mais cultuados do momento, mas mantendo a aura sensível de artista, que foi o estopim para o sucesso quase instantâneo e mas também provavelmente aquela que o levaria à decadência e à morte.

Acompanhar o processo de criação de um artista pode ser estimulante, se esse processo também for. E é assim com Basquiat, colhendo inspiração de todas as fontes possível, desde as visitas frequentes a museus desde que era pequeno até as imagens que via, revistas, livros, pessoas, programas de tv… Tudo podia ser inspirador. Música. A composição improvisada das suas obras reflete quase pictoricamente a improvisação do jazz de Miles Davis e John Coltrane, que ele ouvia incessantemente. E os temas ilustrados também são a história da sua vida, do seu cotidiano, dos amigos e inimigos, do seu estado de espírito.

Como documentário, por outro lado, o filme não deixa a desejar se você não esperar nada de especial. Não por acaso, me lembro de ter achado a mesma coisa do filme da Britney Spears, o que quer dizer que ela não evoluiu nada em quase 10 anos depois do dito cujo, com a diferença – brutal – de protagonista. O filme cumpre seu papel de forma ora monótona, ora irritante por conta de sequências da rasgação de seda que se tornam repetitivas e tendenciosas, que faz pensar que se está vendo um programa do E! Entertainment Television, com direito a cortes que parecem feitos para encaixar um intervalo comercial. Infelizmente, parece que só entrou num festival de documentários de arte pelo seu tema, aliás deve ter sido pelo mesmo motivo que foi escolhido para abrir o evento.

Deixando isso de lado, recomendo. Mais do que ilustrar da vida e obra de um personagem, é o testemunho do processo criativo desse artista, uma espécie de bastidores que revelam os porquês das suas obras. É até óbvio demais: bom para quem não conhece nada, provavelmente chato para quem esperava um discurso mais desenvolvido.

Assista ao trailer de “Jean-Michel Basquiat. The Radiant Child”.