Estudar arte na Itália

Como alguns amigos-leitores-deste-blog sabem, eu vim para Florença estudar História da Arte. Vou fazer um parêntese no tema arte e falar de um assunto prático sobre esse meu projeto.

Deixando o ponto de vista romântico de lado, na prática sou uma cidadã não-comunitária morando na Europa, o que significa que para morar aqui legalmente tem todo um processo, e como as fontes que encontrei na internet desde o início são bem incompletas, resolvi contar um pouco da minha experiência para, quem sabe, servir de guia para quem estiver no começo da jornada. E principalmente, mostrar que estudar no exterior não é só para quem tem muito dinheiro. Se você tem essa vontade, precisa de três coisas: informação, planejamento e paciência.

Vou falar da minha experiência, isto é: brasileira, indo morar na Itália, fazendo um curso de graduação numa universidade estatal em Florença.

Quem pode estudar na Itália?
Qualquer brasileiro pode fazer uma graduação na Itália.

Não precisa ter cidadania italiana.
Não precisa ser descendente de italianos.
Não precisa pagar nenhum escritório de assessoria, eu fiz tudo sozinha.

Preciso falar italiano para estudar na universidade italiana?
A pergunta pode parecer óbvia, mas vamos lá: tem que chegar aqui — ou pelo menos, no início das aulas — com um nível razoável de compreensão. Não precisa ser fluente, dá pra recuperar alguma coisa que se perca das aulas lendo os textos e os livros e com o tempo ele vai melhorando. Mas sim, precisa saber mais que um italiano de novela, a língua é parecida mas não é a mesma.

Documentos
Para fazer um curso de graduação (laurea triennale), o brasileiro precisa ter o diploma do ensino médio e, na maioria dos casos, precisa ter cursado o 1o ano de uma faculdade. Isso porque o ensino na Itália dura 12 anos e o nosso padrão é de 11. Vi na internet história de gente que entrou na universidade italiana só com os 11 anos de escola, então vale a pena entrar em contato com a universidade, pois o grau de exigência pode variar.

No meu caso, como eu já era formada quando comecei o processo, só apresentei o diploma (e respectiva documentação) da universidade do Brasil.

Todos os documentos escolares brasileiros precisam ser traduzidos para o italiano — todas as traduções devem ser feitas por um tradutor juramentado — e depois validados no consulado. Para validá-los, o consulado não cobra nada, mas têm de constar todos esses documentos:

1. Ensino médio: histórico escolar contendo o certificado de conclusão;
2. Ensino médio: tradução do histórico;
3. Ensino médio: lauda do concluinte, que você pega nesse site aqui.
4. Ensino superior: diploma;
5. Ensino superior: tradução do diploma;
6. Ensino superior: histórico escolar;
7. Ensino superior: tradução do histórico;
8. Confirmação de autenticidade do diploma e do histórico: são dois modelos de carta que devem ser baixados do site do consulado (aqui) e assinados pela universidade.
9. Conteúdo programático de todas as disciplinas, encadernado e com as páginas numeradas, sem tradução, mas com uma declaração da universidade contendo: a) nome do aluno; b) nome do curso e número de páginas do conteúdo programático. Essa declaração sim, precisa ser traduzida.

Para cada documento, o consulado vai dar a Dichiarazione di valore in loco, que é o que torna seu documento válido na Itália.

Importante: todos os documentos devem ter a firma reconhecida em cartório e também pelo Ministério de Relações Exteriores (no caso de São Paulo, o Eresp). A validação do Eresp é um serviço gratuito, feito somente por correio e leva de 20 a 40 dias úteis para o seu documento retornar. O consulado só valida documentos que já tenham sido autenticados pelo Eresp.

Pré-inscrição na universidade
A matrícula na universidade começa via consulado. É função do consulado receber os pedidos de matrículas dos brasileiros, junto com a documentação, e encaminhar tudo para a universidade, que vai avaliar tudo e responder ao consulado quem foi aceito.

Esse processo é mais uma burocracia do que um processo de seleção, como pode parecer. Nas universidades italianas a maioria dos cursos não tem vestibular e, embora cada curso tenha um número de vagas reservadas a estrangeiros, esse número dificilmente é atingido. Pelo que pude perceber, é mais para ver se a documentação está em ordem, se falta alguma coisa, se o curso escolhido prevê vagas para estrangeiros.

As pré-inscrições são recebidas somente em um determinado período do ano, geralmente em maio. Toda a documentação de estudo já deve estar pronta.

Visto de estudo
Uma vez confirmada a sua aceitação por parte da universidade, o consulado vai emitir o seu visto. Para isso, além de documentos de praxe (formulário de pedido de visto, foto 3×4, passaporte), vai pedir duas coisas importantes:

1- Documento de saúde: você precisa comprovar que tem direito à assistência médica na Itália, que pode ser um plano de saúde daqui, o então o que eu fiz, o CDAM (Certificado de Direito a Assistência Médica), que é o documento de um acordo bilateral entre o ministério da saúde brasileiro e a Itália e permite a usar o sistema de saúde italiano. Todo contribuinte do INSS tem direito, seja CLT ou autônomo. Os dependentes de um contribuinte também têm direito. Veja aqui se você tem direito.

2- Comprovação financeira: essa parte é bem subjetiva e precisa ser avaliada caso a caso. O ministério de relações exteriores italiano exige do estrangeiro que comprove €350,57 por mês para o período de 1 ano. Isso pode ser comprovado com recibo de compras de euros, imposto de renda (seu, dos seus pais), cartão de crédito, Visa Travel Money etc.  Isso varia de consulado para consulado também (o consulado de São Paulo, sabe-se lá por quê, exige €500,00 por mês), e também vale a regra do “caso a caso”: no caso da compra de euros a conta é fácil, mas nas outras formas de comprovação o valor a ser comprovado é muito subjetivo, então não se amedronte por isso.

A emissão do visto de estudo é grauita. Com o visto na mão, é só viajar!

Quanto custa?
Chegando na Itália, eu efetivei a minha matrícula no escritório de estrangeiros da universidade. Para isso, além de apresentar a documentação, tive que pagar a taxa de matrícula, que foi de €614.

As taxas universitárias (como várias outras taxas italianas) são definidas conforme a renda familiar, então todos os alunos — italianos e estrangeiros — devem apresentar um comprovante de renda. Como eu fiquei na faixa mais baixa (convertida para euro, a renda brasileira fica ainda menor), não paguei mais nada além disso. Esse valor é para todo o primeiro ano de curso. Para a matrícula ao 2o e 3o anos, a taxa é de €317 anuais (para a faixa mais baixa de renda).

Prova de italiano
Na Universidade de Firenze nós temos que fazer uma prova de italiano, que vai atestar o nível de compreensão da língua. Se não estiver dentro do mínimo exigido por eles, o aluno precisa fazer aulas de reforço que são fornecidas em cursos dentro da própria universidade.

Esta também não é prova de seleção e não é razão para se preocupar, já que uma noção mínima de italiano você vai ter, e essas aulas podem ser feitas durante o primeiro semestre de curso, paralelamente às aulas. Eram 20 perguntas muito simples de italiano e de conhecimentos gerais sobre a Itália.

Prova de autoavaliação
Todos os alunos, inclusive italianos, devem fazer uma outra prova de italiano, chamada prova de avaliação. Para os italianos, a prova tem 20 questões de gramática, ortografia e interpretação de texto. Para estrangeiros, são 10 questões, sendo 2 textos com 5 perguntas cada. Mesma coisa, quem não passa tem que fazer aulas de reforço e tal.

Trabalhar na Itália com visto de estudante
Quando você chegar na Itália, deverá pedir o permesso di soggiorno per studio, que é o que vai permitir ficar legalmente no país. Esse tipo de permesso dá direito a trabalhar 20h/semana.

Emprego na Itália é difícil, de uma forma geral. É pior que no Brasil. Em Florença, sendo uma cidade turística, as possibilidades maiores são trabalhar em bares, restaurantes, hotéis, mas encontrar um emprego aqui requer gastar muita sola de sapato e currículos impressos, ir batendo de porta em porta, conhecer muita gente e espalhar que você está procurando.

Os empregos temporários são pagos por hora e o mínimo que se paga são €5 a hora.

Quanto se gasta para viver em Florença
Eu diria que o mínimo para sobreviver por aqui é entre €350 e €400 por mês, então arrumando nem que seja um subemprego, nem que seja meio-período, dá para se virar.

RESUMINDO

O processo para estudar na Itália é:
1. Escolher o curso e a universidade.
2. Validar os documentos escolares no consulado (providenciar com a escola o que estiver faltando, traduzir, mandar pro Eresp, levar no consulado).
3. Fazer a pré-inscrição no consulado no período determinado.
4. Finalizar o processo de pedido de visto, que já terá sido iniciado com a sua pré-inscrição.
5. Viajar!

E nesse meio tempo, juntar uma grana que seja pelo menos o mínimo para sobreviver pelo menos pelos primeiros 6 ou 12 meses, enquanto procurar trabalho.

Quanto vou gastar?
Como eu disse, uma empreitada como essa requer planejamento. Gasta-se, sim, mas é um investimento em uma experiência pessoal que não tem comparação com nenhuma outra. Em outras palavras, o que se gasta com um projeto desses a longo prazo vai valer muito mais que qualquer coisa que se compre.

1. Em primeiro lugar, as traduções. Tradução juramentada é caro (em torno de R$50,00 a lauda, por ex. meu diploma custou por volta de uns R$110,00) e tem bastante coisa pra traduzir.
2. As taxas universitárias (valores aproximados em 2015):
– matrícula 1o ano = €615
– taxa do teste de italiano = €30
– rematrícula nos anos seguintes = €360 por ano acadêmico
3. As taxas do permesso di soggiorno: cerca de € 150 por ano
4. Gasto mínimo por mês = €400, que inclui aluguel de um quarto, transporte, comida — sem livros, sem balada, sem jantar fora, sem viajar no fim de semana (o que pode parecer supérfluo estando no Brasil, mas estando na Itália é um sacrilégio!).
Atualizando: este é o gasto mínimo para sobreviver, vivendo fazendo alguns sacrifícios (dividir o quarto, por exemplo). O quanto é necessário para cada um viver é algo muito pessoal, mas eu acrescentaria que, para ter uma vida “normal” e com um mínimo de conforto, com quarto individual e morando no centro ou adjacências, podendo fazer pequenas viagens nos fins de semana, jantar fora de vez em quando e sair à noite, um valor ideal seria por volta de €800.
Para se ter uma ideia, um chopp num bar não custa menos de 5 euros; uma pizza custa entre 6 e 10 (lembrando que a pizza na Itália é individual e o tamanho varia de pizzaria para pizzaria); no mercado há bons vinhos a 5 euros; eu gastava de 15 a 20 euros por semana no mercado.

Enfim, é fácil? Não. É impossível? Também não. Tudo depende do quanto você quer alguma coisa. Você pode continuar aí com a sua vidinha de sempre, dizendo que estudar no exterior não é pra você, ou pode começar a pensar em um grande projeto de vida, aqui.

Informações (em italiano)
Studiare in Italia
Guia para estrangeiros

(Atualizado em 27/4/2015)