Por que não tirar fotos no museu?

Por que não tirar fotos no museu?

Está rolando na Itália um grande debate sobre uma lei recentemente criada que veta as proibições de tirar fotografias em museus. Ou seja, todos os museus devem permitir que seus visitantes possam tirar fotos, desde que respeitadas as outras regras (desligar o flash, não se aproximar demais da obra de arte, etc.). Embora tenha gente feliz com a liberdade recém-adquirida, os profissionais do mundo da arte levantam algumas questões sobre o assunto, para nos fazer refletir se existem mais prós ou contras nessa nova possibilidade.

O pessoal do site Finestre Sull’Arte trouxe cinco motivos válidos para não se fazer fotos quando se visita o museu, já iniciando o texto dizendo não ser contra fazer fotos e ponto final, mas sim trazer a reflexão sobre o uso abusivo das máquinas fotográficas, smartphones e — o pior de todos — tablets nas mostras. Porque no fim, o prejuízo maior é para o próprio visitante. Aqui vão eles e mais alguns!

1. Você se distrai. Pense no tempo que vai perder tirando a máquina/tablet/smartphone da capa ou bolsa, configurá-la para a foto, procurar o melhor enquadramento, esperar que não tenha ninguém em frente à obra, tirar a foto, conferir na tela se saiu boa, eventualmente tirar outra, conferir de novo, colocá-la de volta na bolsa. Você não acha que pode ser muito melhor investir todo esse tempo para deixar-se levar pela obra de arte observando-a e tentando entendê-la melhor? Se lhe parece pouco o tempo “perdido” para uma só, multiplique por quantas obras de arte você provavelmente vai querer fotografar.

2. Você incomoda os outros. Bloquear uma sala inteira porque você tem que necessariamente tirar uma foto de um quadro (ou, pior ainda, porque quer fazer uma selfie com ela), causa um enorme incômodo aos outros. Por que impedir a outro visitante que observe a obra tranquilamente porque você egoisticamente quer tirar uma foto? Por isso, evite de tirar fotos quando há outras pessoas com você. E saiba que não tem coisa mais insuportável, enquanto você observa uma pintura no museu, que alguém te cutucar para pedir que você saia da frente porque a pessoa tem pressa em tirar uma foto exatamente da pintura que você está observando.

3. As fotos não saem boas. Para começar, convenhamos, você não é nenhum Henri Cartier-Bresson, nem Man Ray, e mesmo os fotógrafos profissionais, quando chamados para fazer fotos de obras de arte, têm como criar um ambiente adequado para tal. Em situações normais, a maioria das salas dos museus têm pouca iluminação, as fotos com flash são quase sempre proibidas (e mesmo que não fossem, o flash só estraga ainda mais as cores da foto, ainda mais tratando-se de uma pintura). Posto isso, você acha que vale a pena perder tempo tirando fotos que sairão escuras, desfocadas, etc.?

4. Passar toda a visita tirando fotos é muito kitsch. Clichê. Brega. Desde que existem os smartphones então, a quantidade de gente que anda com os olhos grudados na telinha do aparelho só aumentou. Isso para não falar dos selfies. Você quer fazer parte dessa pouco invejável categoria?

5. Na maioria das vezes, a foto não serve para conservar uma lembrança. Quanto mais você fizer fotos no automático, mais fotos vai querer fazer. Até um ponto em que vai parecer natural entrar numa sala, fotografar 3 ou 4 quadros e ir embora, sem nem prestar atenção ao que representa, quem é o artista, de quando é a obra. Se a fotografia deve ser uma lembrança de uma experiência vivida, que sentido há em fazer uma foto de algo que não foi experimentado? Se a foto se resumirá em “olha que outro quadro lindo eu fotografei no Louvre”, economize algumas pernadas, alguns minutos, e entre no site do museu. Está tudo lá. Aliás, o que nos faz entrar no item seis:

E mais:

6. Todas as obras de arte mais importantes do mundo estão na internet. Eu disse TODAS. Você, querido leitor que gosta bastante de arte a ponto de ir ao museu de arte, pense em qualquer obra cuja imagem gostaria de conservar. Ponha no google images. Estão lá, em vários tamanhos, com a iluminação controlada, feita por um profissional como falamos no item 3. As esculturas você encontra em vários ângulos. Com 99% de chance, você encontra uma foto com qualidade melhor que a sua. Então, resumindo todos os itens anteriores: vale a pena desperdiçar o tempo que poderia ser usado podendo apreciar de pertinho a pincelada de Van Gogh, ou experimentar observar de diversas distâncias as Ninfeias de Monet, ou procurar os detalhes da Escola de Atenas de Rafael ou das Bodas de Cana de Veronese, enfim, perder esse tempo precioso perto da obra de arte, tirando a 432a versão de um quadro que já está na internet em alta resolução?

Claro, existem casos em que a fotografia no museu ajuda. O visitante, que pode ser um historiador ou pesquisador, mas também pode ser um visitante comum, pode estar à procura de um quadro não tão famoso, que pode ser mais difícil achar na internet. Mas, pensa bem: você pagou um ingresso para ter acesso de perto aos originais das obras de arte, para ver com os próprios olhos o trabalho dos artistas, são peças históricas. Se fosse para vê-las através de uma tela, melhor ver de casa, não? Aproveite a oportunidade, a experiência, viva o momento. Invista seu tempo dentro do museu para o contato com as obras, e se quiser levá-las para casa, compre o catálogo do museu ou da mostra. Faça fotos do ambiente, dos seus parceiros de visita enquanto observam uma obra, crie suas recordações com a máquina, mas lembre-se que nada vale mais do que estar ali, que nenhum registro fotográfico vale mais do que a experiência vivida.

Boa visita!

Texto original: http://www.finestresullarte.info/191n_cinque-motivi-per-non-fare-le-foto-al-museo.php

2 Comments

  1. Luiz Alberto
    26/09/2016 @ 8:05 pm

    Pode até ter imagens de uma exposição na Internet, mas que mal faz eu querer tirar fotos do meu ângulo, do meu ponto de vista?

    Reply

    • Arteando
      29/09/2016 @ 10:59 am

      Olá Luiz. Não é uma questão de fazer mal. Trata-se de orientar as escolhas que fazemos, muitas vezes inconscientemente. Uma pessoa viciada em fotografar tudo o que vê e acha interessante pode se deixar dominar por esse hábito e acabar deixando de fruir melhor a exposição que visita. O post tem o objetivo da reflexão, não da censura. Fotografar uma ou outra obra, ou várias, para guardar o próprio ponto de vista não tem problema nenhum. O ruim é quando você se vê fotografando tudo para levar tudo para casa, esquecendo que a obra ao vivo está à sua disposição bem na sua frente. Espero que tenha ficado clado. Obrigada!

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