Diretor de museu em Nápoles protesta queimando obras de arte

A situação na Itália está grave e o mundo dos artes também está sofrendo os efeitos da crise. Depois de diversos apelos ao Ministério de Bens Culturais, todos sem resposta, o diretor do Contemporary Art Museum de Casória (província de Nápoles) resolveu tomar uma atitude drástica para chamar a atenção do Ministério e do mundo para o problema da falta de fundos para manter o museu: queimar obras de arte.

“Querem nos fazer fechar, então queimaremos as obras”, anuncia o diretor Antonio Manfredi. Acabaram os fundos, a prefeitura de Casoria entrou com ordem de despejo, não se pagam mais as contas. Na terça à noite ele deu início ao que chamou de “uma guerra da arte para prevenir a destruição da cultura”: ateou fogo a uma pintura da artista francesa Séverine Bourguignon, avaliada em £8,200.

“É uma guerra, uma revolução”, disse Manfredi. “E em uma revolução há vencedores e perdedores”.

Ele anunciou que pretende continuar destruindo as obras da coleção permanente, uma por dia, até que se tome uma atitude. “Há mais de 1000 obras, então isso pode durar anos”, disse.

Os artistas o apóiam. Bourguignon acompanhou a destruição do seu trabalho, Promenade, através do skype. “Sinto como se estivesse de luto”, ela disse. “É muito triste que eles tenham queimado minha pintura. Nós esperamos até o último minuto que alguém interviesse. E agora tenho que por na cabeça que nunca mais verei aquele trabalho novamente. Mas espero que tenha valido a pena. Pelo menos as pessoas ficaram sabendo do que está acontecendo com a Itália e com a cultura no mundo todo. Foi útil.”

O Cam fica na área perto Nápoles que serviu de set de gravação para o filme Gomorra, baseado no livro de Roberto Saviano. Manfredi disse que começou a ter dificuldades financeiras depois de realizar uma exposição que denunciava a máfia local, a Camorra. “Você não pode fazer isso e depois ir pedir dinheiro às empresas da região que estão nas mãos da Camorra”, disse. “Algumas pagam por proteção. Outras são de fato controladas por eles”.

Manfredi disse que não quer apenas dinheiro público, mas apoio oficial “porque nessa região, se você não tem respaldo das autoridades, está em sério perigo”.

Ele mesmo um artista, um mês atrás disse que atearia fogo a um dos seus trabalhos e depois enviar fotocópias dos mesmos à comissão europeia de cultura e educação, ao ministro de Bens Culturais em Roma e ao governador da Campania, avisando sobre o que estava prestes a fazer. Mas ninguém respondeu.

A deputada Luisa Bossa do PD (Partito Democratico) apresentou uma interpelação sobre o caso de Casoria ao Ministro de Bens Culturais, Lorenzo Ornaghi: “O Museu Cam vive em péssimas condições econômicas e estruturais. O diretor soou o alarme repetidas vezes, mas caiu sempre no vazio. O Ministério de Bens Culturais não pode lavar as mãos do caso dizendo que o Cam não é de competência pública. É uma vila cultural, com mil obras de arte contemporânea de pintura, escultura, fotografia, vídeo, arte em multimídia e instalações de artistas importantes do mundo todo,  representa um interesse público. Não podemos consentir o seu desaparecimento e destruição.”

“Meu medo é que eles me deixem prosseguir e queimar tudo”, disse Manfredi. Mantendo o protesto, ontem o diretor queimou a segunda obra.

Veja o vídeo:
http://video.corrieredelmezzogiorno.corriere.it/cam-bruciata-opera-d-arte/cm-169967

Tradução livre daqui (The Guardian) e daqui (Corriere del Mezzogiorno).

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