O espetáculo trágico em Atenas

O espetáculo trágico em Atenas

Antes de falar do teatro grego, vale dizer que o pouco que se sabe sobre esse assunto é resultado do cruzamento das escassas fontes históricas que chegaram até os nossos tempos. A partir de fragmentos de textos teatrais, representações figurativas em achados arqueológicos (principalmente vasos) e relatos posteriores, historiadores tentaram traçar um percurso — com não raras interpretações diferentes. É com base nessas interpretações que se estuda a história do teatro, uma história que está em constante mudança à medida em que se encontram novos testumunhos do passado.

As Grandes Dionísias
Eram as festas em homenagem a Dióniso, deus do vinho e da festa, ao que se sabe instituídas pelo tirano Pisístrato[bb] no século VI a.C. Para a celebração era organizado um concurso de espetáculos trágicos — as competições faziam parte da cultura grega, das corridas olímpicas às lutas entre os heróis mitológicos narradas na Ilíada de Homero.

Para o concurso eram pré-selecionados três autores. Cada um teria um dia inteiro para apresentar a sua tetralogia — 3 tragédias e 1 drama satírico –, que durava do nascer ao por-do-sol, compondo assim os três dias de celebração.

Os espetáculos afundavam suas raízes prevalentemente na mitologia — o destino trágico dos deuses, semideuses e heróis –, um patrimônio cultural compartilhado por todos os níveis sociais. Nesse contexto cultural, o teatro tem um papel central ao trazer para o mundo “real” as tramas já conhecidas e disseminadas.

Téspis
Em geral é atribuída a ele a invenção da máscara e, com ela, a da própria atividade do ator. Vamos por partes. Téspis foi um poeta que, ao tempo de Pisístrato, venceu o concurso trágico de 534 a.C. em Atenas, período em que o autor-poeta ainda recitava o próprio texto com o rosto pintado de branco, acompanhado do coro, em uma interpretação narrativa. Ao branco do rosto Téspis acrescentou algumas folhas, flores e materiais leves e recitou em primeira pessoa, assumindo o papel do próprio deus: assim passou para a história como o primeiro ator (em grego hypokrites, aquele que declama/interpreta/responde).

Os grande trágicos
A tragédia foi a primeira tipologia de texto teatral que ganhou destaque na história, por volta da segunda metade do século VI a.C. A comédia surge mais tarde, em 486 a.C., mas só se consagra já entre os séculos V e IV a.C. com Aristófanes (em torno a 450 a.C.-388 a.C.).

Estima-se que no século V a.C. tenham sido escritas em torno de 1000 tragédias, das quais sobreviveram apenas 32: Ésquilo, Sófocles e Eurípides, que já ao tempo de Aristófanes eram considerados clássicos da tragédia.

Ésquilo, 525 a.C. – 456 a.C., 7 textos teatrais remanescentes de um total de 80 a 90. É autor também de uma das poucas tragédias que tratam de um tema histórico e não mitológico, Os Persas (472 a.C.), que narra a batalha e a derrota dos persas contra as gregos. Ésquilo inovou também ao introduzir à cena um segundo ator e tornar as máscaras polícromas e mais expressivas.

Sófocles, 496 a.C. – 406/5 a.C., 7 textos remanescentes de 120/130, dos quais provavelmente o mais comentado nos nossos tempos seja Édipo Rei (por volta de 430 a.C.). Sófocles introduziu à cena um terceiro ator.

Eurípides, 485 a.C. – 406 a.C., 18 tragédias de um total de aproximadamente 90, em 430 a.C. narra a história de Medéia, um dos personagens femininos mais fortes da história do teatro.

Tetralogia e a estrutura da tragédia
Além da composição em versos, um outro elemento fundamental caracteriza o texto trágico: a ação. Aristófanes escreveu que “sem ação não pode existir a tragédia”. A tragédia é uma máquina que produz eventos emocionantes, que têm como fim a ação e não a psicologia dos personagens. Nesse quesito, digamos que estaria mais para Tarantino que para o cinema europeu.

O drama satírico seria provavelmente a finalização da tetralogia, com uma tragédia mais leve que teria a função de suavizar a tensão emotiva das tragédias anteriores.

Enquanto os atores poderiam ser em número de 1 a 3 e representavam os personagens da história, o coro era composto por 12 a 15 coreutas guiados por um corifeu e suas atividades eram essencialmente de canto e dança, com algumas interações com o(s) ator(es).

De acordo com os textos trágicos[bb] de que se tem notícia, a tragédia era estruturada em 5 partes canônicas: 1. prólogo, recitado por 1 ou 2 atores, tinha a função de expor o assunto da tragédia; 2. párodo, é o canto de entrada do coro na orquestra que, por sua vez, era o espaço no teatro reservado à cena; 3. os episódios, geralmente cinco (que poderiam ser de três a sete), eram as cenas da história em si; 4. os estásimos eram cantos do coro que intervalavam os episódios; 5. êxodo, cena final depois do último estásimo e também o canto de saída do coro da orquestra, onde permanece durante todo o espetáculo.

Financiamento e produção
No século V a.C., as tragédias eram encenadas no Teatro de Dióniso com o patrocínio do Estado. Os preparativos para as Grandes Dionísias eram feitos com atenção especial e provavelmente começavam no ano anterior, com a participação de todos os cidadãos.

Vaso de Pronomos: talvez o mais importante documento figurativo da História do teatro

O financiamento dos espetáculos era dividido entre o Estado (que pagava os atores) e os coregos, cidadãos que pagavam do próprio bolso os gastos com o seu respectivo coro, dos coreutas e corifeu às máscaras e vestimentas (cada corego financiava um autor). A coregia[bb] era imposta pelo Estado aos cidadãos ricos, que deveriam gastar uma parte do seu patrimônio para os eventos públicos e recebiam em troca um considerável prestígio que poderia ser determinante à sua carreira política.

Premiação
Um júri era composto de representantes ilustres das oligarquias atenienses, selecionados por sorteio. O magistrado mais importante da cidade, chamado Arconte Epônimo, além de escolher quais seriam os 3 poetas trágicos que participariam do concurso, era quem entregava ao poeta vencedor e seu respectivo corego uma coroa de louros e os declarava publicamente vencedores.

Somente a partir da segunda metade do século V a.C. também o ator recebe um prêmio, período em que as qualidades representativas passam a adquirir mais importância e a profissão vai ganhando autonomia.

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Sobre o público, os espaços teatrais, as máscaras[bb] e as roupas, fica para a próxima!

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