As Cinco Leis da Biblioteconomia de Ranganathan

A biblioteca como principal distribuidora do conhecimento. Esse é o conceito principal da Biblioteconomia moderna[bb], e acho que é o suficiente para começar a acabar com a idéia de que Biblioteconomia é um assunto chato. Essa é a opinião de uma grande maioria de pessoas por tudo aquilo que elas sabem sobre biblioteconomia: nada.

O indiano Shiyali Ramamrita Ranganathan tornou-se matemático e como todo estudioso passou a frequentar muito as bibliotecas. Aos poucos foi percebendo como algumas necessidades básicas dos usuários de bibliotecas ficavam em segundo plano, exatamente como um cliente que utiliza um serviço e quer — e precisa — ser bem atendido. Ranganathan passou a estudar mais a fundo todos os aspectos da biblioteca e criou as suas famosas Cinco Leis da Biblioteconomia, em um livro lançado em 1931 com edição em português de 2009 e que são a base da Biblioteconomia atual.

Cada “lei” tem muitos aspectos para refletir, mas vou resumir a idéia principal de cada uma:

1. Os livros são para serem usados
Introduz o conceito de “serviço” da biblioteca, que não é mais um local de conservação de livros, do conhecimento, mas um local que deve oferecer o acesso a esse conhecimento, que não vem só pelo livro mas por todos os recursos bibliográficos, que abrangem todo tipo de informação documentada: livros, revistas, jornais, mapas, sites, bancos de dados on-line. Esse é o conteúdo da biblioteca moderna, que deve também oferecer condições — conforto, equipamento, logística — para que o cidadão utilize esses serviços.

2. A cada leitor, o seu livro
Os livros são para todos, sem distinção de classe social, nacionalidade, preferência política ou religosa, ou grau de instrução. O bibliotecário deve certificar-se de que todo leitor saia da biblioteca com seu “livro ideal”, ou seja, aquele que é o mais adequado à sua necessidade de leitura. Mais ainda, é papel di bibliotecário promover e divulgar o conteúdo da biblioteca, para que mesmo aquele leitor menos assíduo se interesse pela leitura.

O interessante desse tópico é que todo mundo gosta de ler alguma coisa. Seja por estudo, por prazer, para passar o tempo, do mais intelectual ao menos instruído, que seja um clássico da literatura, uma revista científica, um gibi ou uma revista de fofocas, todo mundo lê.

A segunda lei também reforça a idéia de que a biblioteca deve estar sempre a serviço do cidadão, inclusive no que se refere a horários de abertura, ou ainda que estudantes universitários deveriam ter direito ao acesso à sua biblioteca mesmo após concluídos os estudos, garantindo uma formação permanente.

3.  A cada livro, o seu leitor
Para que o livro encontre o seu destinatário ideal, a biblioteca deve ser organizada de forma que o leitor encontre o que procura sem dificuldade. Essa lei criou um conceito básico na organização da biblioteca moderna: disponibilizar os livros em prateleiras abertas e não fechados em um depósito acessível só a funcionários ou ao bibliotecário. A idéia parece simples, mas revolucionou a maneira de utilizar a biblioteca, já que o que pode estimular um leitor a tirar determinado livro da prateleira é muito particular de cada indivíduo e o seu contato direto com as prateleiras é fundamental.

A terceira lei também introduziu novos métodos para distribuir os livros no espaço bibliotecário, como a separação por disciplinas, classes, subclasses, etc., além de métodos de catalogação que coloquem o leitor em contato com livros similares[bb] ou do mesmo autor.

4. Poupe o tempo do leitor
Agora que o leitor é um cliente, o serviço deve ser eficiente, oferecido em tempo razoável e satisfatório. Para isso, deve-se estudar o processo de pesquisa bibliográfica tal como uma empresa estudaria o próprio cliente: seguir e analisar os percursos tomados pelo leitor, suas preferências, seus hábitos.

O serviço de referência foi introduzido pela quarta lei: trata-se de um serviço personalizado oferecido por bibliotecário especializado em analisar as necessidades bibliográficas do leitor, a fim de obter o máximo resultado no menor tempo. Para isso ele deve conhecer a fundo as ferramentas de pesquisa bibliográfica, e sempre que possível orientar o leitor sobre como utilizá-las.

5. A biblioteca é um organismo em crescimento
Ranganathan faz uma analogia da instituição biblioteca com a biologia: só um organismo que cresce, sobrevive. E ela cresce: no sentido quantitativo, porque a produção literária/documentária/digital não para; cresce no sentido qualitativo, porque à medida em que analisa constantemente as necessidades de seus usuários, se aproxima cada vez mais daquilo que eles procuram, oferecendo um serviço melhor; cresce em dimensão física e conceitual, adquire novas formas e modelos, já que deve estar constantemente se atualizando.  Tudo sempre dentro do escopo de dar acesso ao conhecimento, como meio à educação universal.

A informática e principalmente a internet revolucionaram a maneira de trabalhar com a pesquisa bibliográfica, e olha que não existiam à época em que o livro As Cinco Leis foi escrito. Ainda assim, muitas bibliotecas ainda não se adaptaram a essa concepção contemporânea, é uma mudança que está acontecendo aos poucos e requer boa vontade, como todo serviço “gratuito”. Não é por acaso que entre as bibliotecas mais modernas do mundo estão as das universidades privadas americanas, que custam caríssimo (o tempo de espera para um usuário na biblioteca de Harvard é de 2 minutos).

Por isso, se para você a imagem de biblioteca se ligava a algo ultrapassado, vazio de gente mas cheio de pó, não é culpa sua. Mas se as bibliotecas ainda não se modernizaram, não faça o mesmo! ;-)

AS CINCO LEIS DA BIBLIOTECONOMIA[bb]
S.R. Ranganathan
Tradução de Tarcisio Zandonade
Brasília: Briquet de Lemos / Livros, 2009
336 p.