Lixo Extraordinário

Lixo Extraordinário

Essa semana eu assisti a terceira edição do Festival Schermo dell’Arte, em Florença. Foi a oportunidade que eu tive de assistir, antes da estréia oficial no Brasil, ao documentário Lixo Extraordinário (Waste Land[bb]), que acompanhou desde o início um projeto do artista plástico Vik Muniz no aterro sanitário Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ).

Poderia ser um simples registro do processo de criação de um artista. A ideia era por si só interessante: criar obras de arte a partir dos materiais recolhidos pelos catadores e reverter o faturamento dessas obras em favor daqueles trabalhadores. Vik Muniz já era famoso por utilizar em suas obras materiais inusitados como açúcar, geléia e manteiga de amendoim, criando composições baseadas em fotografias suas ou reproduzindo obras-primas da história da arte.

O que Vik e a diretora inglesa Lucy Walker esperavam encontrar é o mesmo que o espectador: a miséria de quem precisa revirar o lixo para sobreviver. O que ninguém esperava era descobrir naquelas pessoas, apesar das histórias tristes e do sofrimento, a sensibilidade e cultura latentes, que não encontraram espaço para vir à tona e ficaram afundadas em lixo, até o encontro com esses dois artistas. A sintonia dessas três sensibilidades é algo que poucas vezes vemos acontecer, e o resultado não poderia ser outro que um filme extraordinário, um sentimento de leveza, intensificado por serem histórias reais.

Os protagonistas dessas histórias foram a grande surpresa. Personagens como Tião, que criou a associação dos catadores para organizar a classe e defender seus direitos, que fala do livro “O Príncipe” de Maquiavel que leu depois de tê-lo encontrado no lixo, e faz analogias da realidade atual do Rio de Janeiro com os confrontos em Florença. Tião fala com desenvoltura, denotando sua posição, postura e visão de líder que é, ali dentro. Tião é o modelo para A Morte de Marat.

Ou Zumbi, que no filme diz querer montar uma biblioteca comunitária com os tantos livros que encontra, enquanto refletimos sobre o que significa tanta gente jogando livros fora, isto é, vendo o principal instrumento de aprendizado  como algo tão descartável quanto papel higiênico. E essas pessoas, que pouco acesso tiveram aos livros, desenvolveram a habilidade de tirar do lixo só o que presta. Gente como seu Válter, que deixo para o espectador conhecer sem prévias palavras.

Essas reflexões são só o começo. Com uma simplicidade singular, Vik explica aquele que será o processo do trabalho dando aulas de arte. Para eles e para nós. “O momento em que uma coisa se transforma em outra é o momento mais bonito”, diz ao explicar que vai usar o material que eles recolhem para compor as imagens. Depois de fotografar as composições, usando os catadores como modelos e o aterro e os materiais como cenário, Vik levou tudo para o estúdio: as fotos, as pessoas, o lixo. Projetou as imagens no chão e, aqueles que tinham sido seus modelos, agora eram seus assistentes de produção. A composição final era fotografada em alta definição e impressa em grande escala.

Por algumas semanas essas pessoas trabalharam com arte, a arte sobre elas e feita por elas, e se deliciaram com o resultado final. A equipe levou para um leilão em Londres a obra A Morte de Marat e seu modelo, Tião. O leilão rendeu algum dinheiro, mas mais valiosa foi a visita ao museu de arte moderna, quando Vik falou um pouco sobre a vida e obra de Jean-Michel Basquiat, artista que Tião passou a admirar depois de entender melhor o artista, rendendo a reflexão sobre a importância de entender a arte para gostar de arte. Indo mais além, sobre a importância de entender qualquer coisa para gostar (o que me levou a pensar nas crianças que não gostam de estudar e ir para a escola, sobre a importância da capacidade dos nossos professores, mas isso é uma outra grande história).

Acompanhar o trabalho desde o início proporcionou fazer parte das intenções e da sua realização, mas também das dúvidas e da discussão ética dos seus realizadores sobre o depois, isto é, quando aquilo tudo acabasse que efeito teria na cabeça daquelas pessoas? A arte deve ter uma função ética e social, mas ela é capaz de mudar a vida das pessoas? A resposta para essa questão é o final do filme.

Brasil, Nova York, Inglaterra
Vik Muniz e Lucy Walker pensavam em fazer um filme juntos já havia algum tempo, ela como cineasta de documentário, ele como artista plástico. A ideia de trabalhar com lixo levou Vik até o Jardim Gramacho, maior aterro sanitário do mundo onde trabalhavam cerca de 3 mil catadores de material reciclável que separavam para vender e, assim, garantir a sobrevivência. Assim, o artista paulistano radicado em Nova York[bb] chamou a diretora para registrar o processo desde o início.

Um olhar mais crítico e superficial poderia fazer pensar que se trata de mais um filme sobre a miséria brasileira do ponto de vista gringo. De fato, as breves imagens iniciais do lixo recolhido do carnaval não têm muito a ver com o resto do filme, na minha opinião. Mas ver esse filme e não ver nada além dessa miséria e da mensagem que ele declaradamente se propõe a transmitir, que poderia ser piegas se não fosse literalmente real, eu diria se trata da incapacidade de entrar em sintonia com aquela sensibilidade de que falei. E eu poderia dizer que isso não se aprende, mas não posso dizer isso depois de ter visto Waste Land.

Veja o trailer de Lixo Extraordinário / Waste Land

One Comment

  1. CARLOS ROBERTO DE SOUZA
    30/12/2010 @ 4:46 pm

    O Fanzine Episódio Cultural é uma jornal bimestral (Machado-MG/Brasil) sem fins lucrativos distribuído gratuitamente em várias instituições culturais, entre elas: Casa das Rosas (SP/SP), Inst. Moreira Salles (Poços de Caldas-MG) e Cia Bella de Artes (Poços de Caldas-MG). De acordo com o editor e poeta mineiro Carlos Roberto de Souza (Agamenon Troyan), “o objetivo é enfocar assuntos relacionados à cultura, e oferecer um espaço gratuito para que escritores, poetas, atores, dramaturgos, artistas plásticos, músicos, jornalistas… possam divulgar suas expressões artísticas”.

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